terça-feira, 26 de junho de 2007

Entrevista com José Werner

O Touca 14 WP Blog entrevista agora o árbitro FINA José Werner, que apitará, mês que vem, o PAN do Rio de Janeiro. Com mais essa entrevista, teremos entrevistado dois árbitros brasileiros no Pan: José Werner e Décio Patelli. Agradecemos a ambos árbitros por terem nos concedido essas entrevistas.

Touca 14 WP Blog - Como você conheceu o pólo aquático? Foi jogador ?

Werner - Comecei aos 15 anos, vindo da natação da Gama Filho. Passei no teste da escolinha e fui treinar com o Prof. Alex Pina. Inicialmente, jogava na linha, mas em um treino de sábado nosso goleiro faltou e o Alex me pediu para agarrar. Nesse dia me tornei goleiro oficial do time (o antigo "Jovens") e não parei mais. Joguei durante 10 anos, sempre no Tijuca, e parei em 1982, aos 25 anos, exclusivamente porque precisava trabalhar e não dava para conciliar os dois. Tive excelentes e saudosos técnicos - Luiz dos Anjos, Édson Pézinho, Waldyr Ramos, Jorge Eiras além, é claro, daquele que me iniciou no esporte: meu amigo Alex Pina. Com eles, consegui um Vice-campeonato Estadual de Jovens 1974, uma pré-convocação para o Sul-Americano do Chile 1975, um inédito Campeonato Carioca Juvenil 1976 (o 1º ganho pelo Tijuca) e um Brasileiro de Adulto em 1982, ano em que "pendurei a sunga".

Touca 14 WP Blog - Por que decidiu se tornar árbitro de pólo ?

Werner - Meu primeiro (e melhor) diretor de pólo, Sr.Bernardo Barradas, me perguntou se eu queria apitar pólo aquático porque na época, 1984, a Federação estava buscando novos árbitros. Achei interessante a idéia e ele me colocou para apitar. Meu primeiro jogo foi no Flamengo, junto com o Sérginho (Lapport) e me senti muito bem, tranqüilo, e decidi continuar. Desde então, entre idas e vindas, são 23 anos respirando pólo aquático, fora e dentro da piscina. Em 1997, combinei com meu amigo Roberto Cabral acompanhá-lo no Mundial Júnior Masculino, em Cuba. Ele foi o árbitro indicado pela CBDA e fui pagando tudo do meu bolso, no melhor investimento que fiz na vida até hoje. Conheci os membros do TWPC da FINA, me tornei amigo da maioria, vi alguns excelentes árbitros atuando (Tulga, Stampalyigia, Madera) e aprendi ao vivo o que era uma competição internacional. No ano seguinte, a CBDA me indicou para o quadro da FINA, onde continuo até hoje e pretendo seguir nessa condição até 2012, quando estoura minha idade-limite para apitar jogos internacionais (55 anos). Desde então, já apitei em 4 Sulamericanos, 3 Mundiais júnior, 2 Panamericanos júnior, 2 etapas da Liga Mundial, 2 Pré-Mundiais Adulto (apitei a final nos 2), e trabalhei como oficial de arbitragem em 1 Pré-Olímpico e na Liga Mundial realizada pela 1ª vez aqui no Brasil (Rio de Janeiro). O interessante é que nas semi-finais da Liga Mundial em Toronto 2005 me tornei o 3º árbitro neutro do Brasil na FINA, depois do Patelli e do Cabral, seguindo os passos do meu amigo Alexandre Meyer-Flugg, o Alemão,que foi nosso 1º árbitro neutro na FINA.

Touca 14 WP Blog - Na sua opinião, qual será a colocação do Brasil no Pan ?

Werner - Como torcedor e brasileiro, claro que gostaria de ver meu País no topo do pódio. As dificuldades encontradas ao longo da preparação, no entanto, me fazem temer por uma colocação aquém da que a equipe poderia conquistar. Excetuando EUA e Canadá, que estão se preparando há tempos para esse Pan (o torneio Pré-Mundial em outubro/2006 e o Mundial de Esportes Aquáticos/2007 foram etapas dessa preparação), as equipes que podem surpreender são as de Cuba e México. Mas, tomara que nossos atletas se superem, e superem também os problemas que encontraram e consigam um lugar no pódio.

Touca 14 WP Blog - Qual foi o jogo mais importante que você já apitou ?

Werner - Todos os jogos são importantes para um árbitro. Uns ficam marcados pelas circunstâncias em que aconteceram ou por um fato inédito mas, para mim, um jogo é sempre diferente do outro. Posso citar, como experência única, o jogo Espanha x Grécia pelas semi-finais da Liga Mundial em 2005, no Canadá. Foi a primeira vez que apitei uma partida entre equipes da Europa e fiquei muito orgulhoso disso. Depois, o ginásio coberto onde ocorreram as partidas estava lotado (cerca de 2000 pessoas), com torcidas das duas equipes fazendo uma algazarra incrível. E a entrada era cobrada (cerca de 5 dólares canadenses). Um show. Fora a partida, que terminou 9 x 9 no tempo normal e foi para os penaltis (na Liga não há prorrogação). A Espanha venceu por 20 x 19, ou seja, cobrou 11 penaltis para vencer a Grécia, numa partida que decidia uma colocação melhor no cruzamento das finais da Liga. Foi único assistir de um lado atletas como Felipinho e Kiko Perrone, Molina, Ivan Perez e do outro os irmãos Afroudakis e o restante da equipe que, em 2006, seria 3ª colocada nas Olimpíadas de Atenas fazerem um jogo disputado, de altíssima técnica mas sobretudo LIMPO, sem teatro ou deslealdade. E também me chamou à atençao a educação dos atletas, cumprimentando os árbitros e os oficiais de arbitragem após as partidas.

Touca 14 WP Blog - Por quais motivos você acha que o pólo aquático brasileiro se encontra em sua atual situação ? E o que deve ser feito para sair dela ? A desfiliação da CBDA seria uma boa saída ?

Werner - A saída para o esporte no Brasil, não só para o pólo aquático, seria o investimento nos esportes na base, ou seja, nas escolas. Colocamos a responsabilidade da formação do atleta nas mãos dos clubes e esses deveriam receber esses atletas já preparados para a prática desportiva. Fazer esporte no Brasil é caro e só favorece uma minoria. Trabalho em uma escola do município (Sambódromo) e me entristece a ociosidade daquele espaço ao longo do ano, esperando pelo próximo carnaval ou pelo próximo show. Atendo alguns alunos com grande potencial para a prática desportiva, mas que não têm a oportunidade de explorar isso de forma orientada. As Vilas Olímpicas, de boa idéia, passaram a ser problema, na medida que se tornaram moeda de troca para alguns políticos. Então, sobram os clubes que mal conseguem se sustentar com seus quadros de associados. Como esperar investimentos se eles mal pagam seus funcionários? Quanto à CBDA, ela existe para dar suporte aos clubes e às federações, não para formar atletas. Sendo uma entidade regida pelo sistema presidencialista, o que é feito parte de premissas estabelecidas pela presidência e que devem ser seguidas pelos respectivos supervisores. Acredito que sem o suporte da CBDA, nenhum esporte aquático conseguirá se manter sozinho. Se as políticas estão certas ou não, é outra história, e aí caberia discutí-las mas sempre dentro do âmbito da Confederação.

Touca 14 WP Blog - Tendo em vista a entrada de alguns árbitros novos no último Festival Infantil de Inverno, o que você acha que é preciso para ser um bom árbitro de pólo ?

Werner - Para ser um bom árbitro de pólo, em primeiro lugar, você tem que GOSTAR de estar na beira da piscina decidindo ações em menos de 1 segundo, ignorando os gritos, nem sempre inteligentes da torcida e suas ofensas, agindo contra as pressões dos treinadores e dos atletas e tendo que aplicar uma regra que não te dá limites para dúvida. Ou seja, você tem que ser um pouco "maluco". Além disso, ter sido jogador é FUNDAMENTAL ! E por último, mas não menos importante, TEM QUE SABER A REGRA DO JOGO ! Um conselho que dou aos novos árbitros é que treinem pelo menos 2 vezes por semana em clubes diferentes para aprender a aplicação correta da regra, para melhorar a velocidade de raciocínio, cuidar da forma física (ajuda nos reflexos na hora do jogo) e que LEIAM A REGRA todos os dias. Acho ótimo estarem surgindo novos árbitros, porque a minha geração está parando ou vai parar daqui há pouco e não teremos árbitros para escalar.

Touca 14 WP Blog - Algumas pessoas não veêm com bons olhos você ser árbitro e técnico da escolinha do Tijuca Tênis Clube, como você encara essas críticas ?

Werner - Eu nunca justifico nada, sabe por que ? Porque os amigos não precisam e os inimigos não acreditam. Ser árbitro de pólo aquático NÃO é minha profissão. Minha profissão é de Professor de Educação Física e o Tijuca é um dos meus empregos desde sempre. Iniciei minha vida profissional lá e já se vão 25 anos entre idas e vindas. Ninguém no pólo aquático está desligado de algum clube e essas críticas não me incomodam em nada. Trabalho como professor da escolinha de pólo, na formação dos futuros atletas das equipes, principalmente a infantil e o feminino (nossa escolinha é mista) e minha ligação com as equipes termina aí. Quando assumi a equipe feminina em 2004, sabia que não poderia apitar e ser treinador, embora tivesse o respaldo da FINA para tanto, já que o Brasil gosta de ser a vanguarda do atraso em algumas situações. Nada me impedia de trabalhar com o feminino e apitar jogos do masculino, desde que não fosse do Tijuca, claro. Aliás, nem jogos do grupo do Tijuca em campeonatos oficiais da CBDA eu apito, para evitar insinuações de ajuda ao meu clube. Deixei de treinar o feminino por solicitação pessoal do presidente da CBDA, que me convenceu de que eu seria mais útil à Confederação como árbitro FINA do que como treinador. Aceitei seus argumentos, muito por conta da instabilidade em ser técnico, e decidi continuar na arbitragem. Portanto, quem fala não sabe o que está dizendo. Continuo com a equipe feminina, como treinador de goleiras, além de treinar os goleiros do infantil, e nosso trabalho segue em frente.

Touca 14 WP Blog - Você acha que alguma regra do pólo deveria ser mudada/incluída/excluída ?

Werner - Para agilizar a dinâmica do jogo, seria interssante se testar a substituição normal do jogador durante a partida permitindo a entrada do substituto pelo meio de campo, em frente à mesa de controle, desde que sua equipe estivesse no ataque e já tivesse passado do meio-campo. O jogador substituído também sairia pelo meio da piscina e nadaria até o seu banco de reservas. No restante da regra, acho que as modificações feitas tornaram o jogo mais disputado, além de exigirem mais da arbitragem em termos de atenção, conhecimento da regra e controle do banco de reservas.

Touca 14 WP Blog - Como se sente sabendo que irá apitar o Pan no Rio de Janeiro ? Pode deixar uma mensagem para a comunidade do pólo aquático brasileiro.

Werner - Me sinto feliz e orgulhoso porque é uma honra representar o país em um evento dessa magnitude na minha cidade. Quanto à mensagem, que não se percam as esperanças em dias melhores para nosso esporte. Isso não depende de ajuda oficial ou extra-oficial de quem quer que seja. Depende apenas daqueles que gostam do esporte e que querem vê-lo em um outro patamar, com mais visibilidade e apelo. Temos que deixar de ser um "esporte secreto" e partir para ações ordenadas, inteligentes e que agreguem as pessoas em torno delas. Esse é o caminho e espero que o objetico seja atingido.


____________________________________________________


Foto da Premiação do Trófeu do Blog no Estadual Juvenil



Da esquerda para a direita: Cirilo, do Botafogo, Touca de Prata, Guilherme, do Flamengo, Touca de Ouro e Bernardinho, do Tijuca, Touca de Bronze.

Foto: Eliane, mãe do Bernardinho.

2 comentários:

Anônimo disse...

gostaria de desejar boa sorte ao amigo werner em mais uma competição!!
sei da sua qualidade e dedicação ao nosso esporte e parabéns pela entrevista.

Anônimo disse...

Grande Werner,
Rumo ao Pan do Rio !!!! mesmo com toda discussão e reclamação !!!!
Sempre seremos amigos, Boa sorte e grande participação !!!!!
Abção Solon Santos.